Por quem os sinos dobram
Estamos nos aproximando cada vez mais do Mal Absoluto. Quando presenciamos famílias inteiras sendo destruídas pela força do inimigo, isso não é apenas um ato isolado: todos nós, em maior ou menor escala, somos culpados. Somos culpados pelo silêncio que permitiu que a situação em nossa pátria chegasse a este ponto. Somos culpados porque vivemos em uma época de “tolerância”, e perdemos a capacidade de pregar o evangélho. Somos culpados porque nos horrorizamos hoje, mas nos esquecemos amanhã, quando há outras coisas mais importantes para fazer e para pensar. Somos os olhos que viram uma vida sendo ceifada pelas drogas e criminalidade, o medo que nos impediu de falar do amor de Cristo. Somos aqueles que ouvem falar todos os dias do amor de Cristo, mas não perdemos o nosso precioso tempo para manifestar esse amor com o próximo porque o Mal Absoluto parece já não pedir urgência para nada. Somos o asfalto por onde se espalharam os pedaços de corpo e os restos de sonhos. A cada dia uma nova barbárie, em maior ou menor escala. A cada dia algum protesto, mas o resto é silêncio. Somos o Silêncio. Estamos acostumados a nos silenciar, não é verdade?Muitos séculos atrás, John Donner escreveu: “nenhum homem é uma ilha, que se basta a si mesma. Somos parte de um continente; se um simples pedaço de terra é levado pelo mar, o Brasil inteiro fica menor. A morte de cada ser humano me diminui, porque sou parte da humanidade,sou parte da videira verdadeira. Portanto, não me perguntem por quem os sinos dobram: eles dobram por ti.” Na verdade, podemos pensar que os sinos estão tocando porque o inimigo ceifou mais uma vida, mas eles dobram mesmo é por nós que estamos aqui sentados inerte dormindo ou morto. Tentam nos acordar deste cansaço e torpor, desta capacidade de aceitar conviver com o Mal Absoluto, sem reagir – desde que ele não nos toque. Mas não somos uma ilha, e a cada momento perdemos um pouco mais de nossa capacidade de reagir. Ficamos chocados, assistimos às entrevistas, olhamos para nossos filhos, pedimos a Deus que nada aconteça conosco. Saímos para o trabalho ou para a escola olhando para os lados, com medo de crianças, jovens, adultos. Entra ano, sai ano, mudam-se governos, e tudo apenas piora. O que dizer? Que palavra de esperança posso falar? Muitas. Ou talvez apenas pedir que os sinos continuem tocando por nós. Dia e noite, noite e dia, até que já não consigamos mais fingir que não estamos escutando, que não é conosco, que estas coisas se passam apenas com os outros. Que estes sinos continuem dobrando, sem nos deixar dormir, nos obrigando a ir até a rua, e gritar aos quatro canto da terra que há salvação em Cristo Jesus. Não agüento mais estes sinos. Preciso fazer alguma coisa, porque quero que todos habitem a pátria celestial”. Neste momento, entenderemos que embora culpemos a polícia, os assaltantes, o silêncio, os políticos, o hábito, apenas nós podemos parar estes sinos. O poder que Cristo nos ´da é muito maior do que pensamos – trata-se de entender que não somos uma ilha, e precisamos usá-lo. Enquanto isso não acontecer, o Mal Absoluto continuará ampliando seu reinado, e um belo dia nos apresentaremos a Cristo com as mãos vazias. Não podemos deixar que chegue este dia . Não tenho fórmulas para resolver a situação, mas sou consciente de que não sou uma ilha, e que a morte de cada ser humano me diminui. Preciso parar minha pátria. Não apenas por uma hora, um dia, mas pelo tempo que for necessário. E recomeçar tudo de novo. E, se não der certo, tentar não apenas mais uma vez, mas setenta vezes sete. Chega de culpar a polícia, os assaltantes, as diferenças sociais, as condições econômicas, as milícias, os traficantes, os políticos. Eu sou a minha pátria, e só eu posso mudá-la. Mesmo sem saber exatamente como dar o primeiro passo, mesmo achando que um esforço individual não serve para nada, preciso colocar mãos no arado. O caminho irá se mostrar por si mesmo, se eu vencer meus medos e aceitar um fato muito simples: cada um de nós faz uma grande diferença no mundo.
(Texto adaptado. Autor Paulo Coelho)
SEL

Gostei da frase! Cada um de nós faz uma grande diferença no mundo.(Paulo coelho)
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